"A pior verdade é sempre melhor que a melhor mentira".
Este sempre foi meu lema até que a vida e a maturidade me ensinaram que nem tudo é tão preto no branco assim, afinal, entre um e outro há inúmeros tons de cinza. A maturidade nos torna mais flexíveis em relação ao mundo, às pessoas, a nós mesmos mas isso não adianta explicar, só vivendo para saber.
O fato é que nem toda mentira é tão mal intencionada e a verdade indigesta é que, em algum momento, todos mentimos.
E depois desta descoberta "genial" passei a classificar a mentira em quatro grupos.
- A mentira de sobrevivência: muito usada para sair de uma situação comprometedora.
- A mentira caridosa: É quando a verdade vai fazer mais mal do que bem a alguém, vai magoar ou ofender.
- A mentira cuidadosa: É quando a verdade vai fazer alguém sofrer de fato e esta é muito próxima da mentira caridosa também.
- A mentira destrutiva: É a mentira desnecessária, a que destrói, que traz decepção e que faz com que percamos a confiança em alguém.
Algumas pessoas mais radicais diriam que qualquer mentira é destrutiva e que nunca mentem. Se você está nesse grupo pare, respire, pense um pouco e vai descobrir que contou alguma mentirinha ontem ou talvez na semana passada.
Não, este texto não é para fazer apologia à mentira. Continuo acreditando que a verdade é sempre melhor e mais benéfica que qualquer mentira mas temos que reconhecer que a mentira, em certos momentos, facilita a convivência. Imaginem se só falássemos a verdade o tempo inteiro, nua e crua, sempre...
..."E dizer para a amiga que ela engordou muito e questionar como pôde se descuidar assim; que o vestido novo de uma outra é de péssimo gosto; que seu novo corte de cabelo não lhe caiu bem... a um amigo que se reclamasse menos da vida e se esforçasse mais na certa teria mais sucesso; ao chefe que chegamos atrasados porque no fundo a cama estava ótima; ao professor que não terminamos aquele trabalho porque a namorada estava em casa; à mãe que o almoço de domingo não estava tão saboroso assim"... enfim, em alguns momentos, mentimos.
Alguns diriam que, mesmo nesses casos, a verdade é o melhor caminho, inclusive porque trata-se de franqueza. Eu penso que a franqueza mal administrada está muito próxima da falta de educação, da falta de gentileza e de bondade com as pessoas com quem convivemos. Ou seja, deixando de lado a auto defesa e a hipocrisia, mentimos. E sempre haverá uma justificativa para essas mentirinhas inocentes que chamamos de pretextos, desculpas, omissões mas que no fundo são o que são: mentiras.
Entretanto, se há algum momento em que a mentira nunca é bem vinda e sempre desnecessária é nas relações BDSM.
Nestas, estando os papéis muito bem definidos, a transparência é essencial. E por quê? Acaso estas relações são melhores que as outras? Não. Mas são relações onde a base tem que ser a confiança. E é óbvio que a base de qualquer relação deve ser esta nas sem confiança uma D/s, por exemplo, não funciona. Tudo transforma-se em um grande engodo. Um finge que manda, o outro finge que obedece e segue-se um sem fim de inverdades que, ao final, podem fazer tudo ruir.
Que necessidade tem um Dono de mentir à sua escrava se ela é de fato uma escrava e está ali para obedecê-lo e aceitar suas determinações, sejam quais forem, porque assim aceitou entrar na relação?
Que necessidade tem uma escrava de mentir a seu Dono se ele está ali não só para usá-la mas para ajudá-la a crescer na submissão e é seu dever, portanto, ouvi-la, entendê-la, aprimorá-la?
Por muito tempo acreditei que ser a melhor escrava, a que nunca reclama, a que apenas serve sem nada questionar seria o protótipo da escrava perfeita. Quanta pretensão! E quanta mentira nessas atitudes porque à medida que nos calamos diante de coisas que nos fazem realmente mal estamos não só mentindo mas trabalhando contra nós, contra nossa felicidade.
Não é o caso de ficar de mimimi a todo momento, isto é diferente. Mas de dizer, com o devido respeito, aquilo que realmente nos incomoda.
Ninguém é perfeito, estamos em um caminho de aprendizado, sempre. Nunca estamos prontas.
Então, se posso dizer algo a pessoas que têm relações desse tipo é: sejam transparentes, límpidos como a água mais pura.
Aos Donos, não escondam nada de suas escravas. Confiem que elas terão o discernimento suficiente para compreendê-los em qualquer circunstância. E se não tiverem, trabalhem isso nelas. Se não conseguirem, repensem a submissão delas ou sua própria dominação.
Às submissas e escravas, não soneguem sentimentos a seus Donos. Falem, com o respeito necessário, mas abram o coração. Seu Dono deverá ser compreensivo o suficiente para entender seus medos, suas inseguranças e lhes ajudar nisso. Se ele não puder fazer isso repense sua própria submissão ou a dominação dele.
A transparência cria intimidade, confiança, cumplicidade. Sem isso, nada faz sentido. E tem que vir dos dois lados, a verdade não obedece hierarquias, ela é soberana e tem algo de místico, de inexplicável porque não importa os caminhos que tome, ela sempre vem e nos encontra.
{Λita}_ST



























